Mater

MATER é a primeira criação musical do Teatro da Didascália. Com direção musical e composição de Rui Souza, é um concerto dividido em 6 partes: cada uma dessas partes evoca um dos elementos da “Teoria dos Cinco Elementos” de Wu Xing – Madeira 木, Água 水, Terra 土, Metal 金 e Fogo 火 -, elementos que dão o nome a cada uma das composições de MATER. O sexto concerto propõe uma simbiose entre esses cinco elementos. A essa sexta composição, deu-se o nome de MATER. 

 

Em MATER, evoca-se o património imaterial – uma das linhas de pesquisa do Teatro da Didascália – e cruza fronteiras: dos Cantares Polifónicos da Albânia à Polifonia Minhota; dos Tenores da Sardenha ao Cante Alentejano, passando pelo Throat Singing da Mongólia.

 

“Mater”: palavra de origem latina da qual deriva “matéria” (mas também a palavra “mãe”).

Capítulo I Madeira

A madeira está presente em quase tudo nas nossas vidas, mesmo que, por vezes, o ignoramos ou esqueçamos. É um dos nossos pilares, sustento, suporte. É também um material de extrema resistência e durabilidade, e, simultaneamente, dos mais leves e acessíveis. Para alguns, transmite uma sensação de conforto ou de aconchego. Porque nos sentimos confortáveis com a madeira?

O primeiro dos concertos Mater, Madeira , pretende trazer à tona o arrepio do elemento, a sensação primária do que somos: natureza. A esta ideia ou sensação nas composições aliar-se-à também uma grande influência do cante alentejano. A viagem começa em casa.

Capítulo II Água

Mergulhamos. A água é, como sabemos, caminho: origem, meio e fim. É a fonte da vida, o elixir da existência. Para nos fazer seguir viagem e sentir dentro de nós este elemento, Água  evoca a sua fluidez e simplicidade, mas também o seu potencial de torrente.

Ao material – água – junta-se o imaterial – os cantares polifónicos da Albânia -, continuando o cruzamento de um com o outro, a base de inspiração de MATER.

Capítulo III Terra

Já não estamos em casa, seguimos o fluxo, e quando pisamos terra firme pela primeira vez, paramos.Terra  pretende despertar aquele ponto na nossa memória que nos faz recordar a nossa ligação com a terra: a terra entre os dedos dos pés quando brincávamos em criança, a terra na cara, a terra enquanto chão universal, a terra vista como sítio de onde partimos, por onde caminhamos, ou mesmo evocar a terra, como fim. Será o último desta forma de existência? A terra nunca é igual, nunca é única, nunca é redenção. De terra em terra, de mar em mar. É preciso melhorar o barco.

Capítulo IV Metal

O barco continua igual, mas a carapaça, não. O quarto concerto Mater promete ser o mais estridente, o mais duro, o mais agudo, o mais grave, o mais pesado, o mais leve, o mais insano, o mais geométrico, o mais quente, o mais gelado, o mais cortante, o mais insensível, o mais rugoso, o mais liso…

Como base para a composição, temos o próprio metal e o Throat Singing da Mongólia. Como na tradição mongol, cada voz pode cantar duas, três ou mais notas em simultâneo. Harmonia ou cacofonia? Não encontramos o ideal, muito menos, o paraíso. É preciso começar de novo.

Capítulo V Fogo

Já pensaram que o fogo é uma das poucas coisas visíveis que tende sempre para cima? Tudo funciona como a maçã de Newton, ou a de Eva e Adão. A maçã caiu e nós caímos com ela, na terra.

O fogo é outra coisa: o fogo contraria essa lei, o fogo mostra o seu poder, alimentando e destruindo o mundo. O fogo retém em si a lei do eterno retorno: destruir para que tudo nasça e se repita novamente. Como se não bastasse, é o fogo que representa a felicidade na cultura chinesa. O fogo sorri e anda sempre de cabeça erguida.

Em Fogo , as composições serão mais sorridentes e, ao mesmo tempo, terão este caráter rotundo, indo sempre ao encontro de um ponto, onde tudo recomeça novamente.

EPÍLOGO Mater 

Madeira | Água  | Terra  | Metal  | Fogo  

Durante o segundo semestre de 2018, Rui Souza, o diretor musical do Teatro da Didascália, compôs e apresentou cinco concertos, evocando, à vez, um dos cinco elementos da Teoria de Wu Xing – Madeira | Água  | Terra  | Metal  | Fogo .

O concerto final do projeto Mater é o epílogo, a simbiose de todos estes concertos, elementos e inspirações numa única peça interpretada pelos músicos envolvidos no projeto, desde a sua primeira apresentação, em junho de 2018, com Madeira .

Tal como na própria teoria de Wu Xing, este concerto pode ter duas características que se contradizem: se por um lado pode ser catastrófico, por outro pode ser apaziguador, harmonioso ou perturbador.

Assim como é questionado nessa mesma teoria, o objetivo destas composições é tentar perceber de que forma é que o fogo controla a madeira, a água controla o fogo ou a terra controla a água, i.e., como se relacionam e se contaminam os cinco elementos.

A teoria do eterno retorno, mais antiga, pré-socrática, diz-nos que o fogo destruirá tudo e que tudo voltará a acontecer exatamente da mesma forma. Este concerto pretende trazer exatamente essa energia: da destruição à harmonia, da organização ao caos.

Este concerto é, assim, intenso pela sua massa sonora e pelas composições desconcertantes das quais, ao mesmo tempo, se espera que tragam uma certa paz a quem o assiste.

Composição e direção musical: Rui Souza

Desenho de luz: Valter Alves

Músicos convidados: Samuel Martins Coelho – Violino; Carina Albuquerque – Violoncelo; Pedro Teixeira – Oboé, Corn Inglês e Duduk; Pedro Gonçalves Oliveira – Bateria; Marco Ferreira – Guitarra Elétrica; Miguel Moreira – Guitarra Elétrica; João Mortágua – Saxofone; Carlos Correia – Voz; Teresa Melo Campos – Voz; Hugo Cardoso – Percussão; Gonçalo Alegre – Baixo, contrabaixo e eletrónica.

Fotografia: Jonathan da Costa

Design Gráfico: Rui Verde

O Teatro da Didascália é uma estrutura financiada pela Direção-Geral das Artes – Ministério da Cultura e tem como principal autarquia parceira, a Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão.

Classificação etária: M/6

Duração aproximada por concerto: 60 min. // concerto final: 120 min.